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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A lenda do pássaro quero-quero

O quero-quero (Vanellus chilensis)
 é ave símbolo do Rio Grande do Sul 
Era uma vez um pássaro que vivia na floresta e não andava nada satisfeito com sua vida. Ele não sabia por que, mas todas as coisas que ele queria não davam certo. Ele era muito agitado e só sabia dizer “quero” para tudo e para todos. Sempre cantava muito alto e no seu canto somente se entendia a palavra “quero”. Quando entravam os outros pássaros, ele não sabia de que se tratava o assunto e ia logo gritando “quero”. Um dia ele achou que ninguém era amigo dele, e que todos queriam o seu mal. Ficou muito triste e saiu a andar pela floresta chorando muito. Mesmo chorando sozinho pela floresta gritava bem alto seu canto “quero”. Do alto de uma árvore estava o professor Coruja que, vendo aquele pássaro gritando tão alto e chorando muito, não se aguentou e desceu até o chão.
– O que acontece com você, pobre pássaro? Você quer ajuda? Perguntou o professor Coruja.
– Quero. Respondeu o pássaro chorão.
– Por que você grita tão alto? Você quer um amigo para conversar? Quer?
– Quero.
– Você quer parar de chorar e ficar alegre?
– Quero.
– Você quer sentar um pouco aqui perto da minha casa para conversarmos? Perguntava o professor Coruja, curioso pelas respostas do pássaro.
– Quero. Mais uma vez respondeu o pássaro.
O professor Coruja então parou e pensou: “Nossa, esse pássaro só sabe falar uma palavra e para tudo diz quero. Será que ele não sabe dizer outra coisa? Vou perguntar a ele o que realmente quer quem sabe com isso ele pare de cantar”.
– Pássaro, o que você quer?
– Quero. Respondeu o pássaro.
Então o professor Coruja novamente se surpreendeu com a resposta e disse ao pássaro:
– Meu bom pássaro, você não pode simplesmente querer as coisas. Para querer e obter algo na vida é preciso mais. Sempre precisamos ter duas vezes o querer. Você já pensou nisso?
Assim o pássaro que até então só gritava, olhou para o professor Coruja, parou de chorar e pela primeira vez se dispôs a escutar alguém.
– Quero entender isso, professor Coruja, disse o pássaro com brilho nos seus olhinhos.
– É muito simples – disse o professor Coruja. Para vivermos bem e felizes, precisamos querer duas vezes. Querer as coisas boas para nós, mas também querer as coisas boas para os outros que convivem conosco. Todos nós queremos respeito e, para sermos respeitados, precisamos respeitar os outros, ou seja, todos nós queremos ser amados, mas, para sermos amados, precisamos amar os nossos semelhantes. Com ar mais feliz o pássaro começou a entender o que acontecia e disse:
– Explique mais, professor Coruja.
– Veja, todos nós queremos proteção, não é verdade? Mas para termos proteção precisamos proteger. Nós fazemos isto quando cuidamos das coisas dos outros, então eles também cuidarão das nossas coisas. Se quisermos ter saúde, então precisamos também querer nos cuidar, querer nos alimentar bem e querer praticar esportes e querer dizer não.
– Como assim? – perguntou o pássaro, que nunca havia visto alguém falar em não querer.
– Sim, pássaro, às vezes é preciso não querer. Se você quer saúde, você não pode querer ser guloso, preguiçoso e, principalmente, você não pode querer drogas, como cigarro, a bebida e outras porcarias que só estragam a nossa saúde e a saúde dos outros.
– Ah! Agora entendi. O que realmente quero é ser feliz.
– E você deve querer ser feliz, falou o professor Coruja. Mas para querermos ser feliz é preciso também querer fazer os outros felizes. Quando fazemos os outros felizes, somos felizes também. E foi então que o pássaro alegremente disse:
– Quero-quero, quero-quero.
Despediu-se do professor Coruja com grande alegria e retornou para o campo onde morava. Até hoje esse pássaro chamado “quero-quero” vive alegremente nos campos chamando a atenção de todos com seu canto.
– Quero-quero, quero-quero…
Dizem que seu canto é para lembrar a todos que escutarem que é preciso querer duas vezes; querer o bem para si, mas também para os outros.

domingo, 29 de novembro de 2015

A desculpa do pneu furado


À véspera de uma prova, quatro alunos resolveram chutar o balde: iriam viajar, faltar à prova e, então, “dar um jeitinho” com o professor para fazerem a prova quando retornassem da viagem.
Na terça feira, após o final de semana, retornaram à escola, dirigiram-se ao professor e argumentaram juntos, ao mesmo tempo:
" - Professor, tivemos que viajar no final de semana e só retornamos na tarde de ontem. Na viagem, mil problemas nos acercaram. Dentre eles, um pneu que furou e não conseguimos consertá-lo a tempo de chegar para fazer a prova de ontem. Será que o senhor poderia aplicar hoje a prova?"
O professor, sempre compreensivo, respondeu-lhes:
" - Claro, vocês podem fazer a prova hoje à tarde após o almoço, sem problema nenhum."
Os meninos voltaram para casa e estudaram bastante toda a matéria pedida pelo mestre. Uma vez com tudo na cabeça, retornaram à escola. Lá chegando, o professor colocou-os em salas diferentes e entregou a prova, que valeria 10 pontos, para que fosse resolvida. Na verdade, na prova havia apenas duas perguntas.
Quando os alunos pegaram a folha, sorriram por dentro, achando que se dariam bem nos dez pontos. Mas, quando leram as perguntas, tamanha foi a surpresa:
- A primeira pergunta tratava da matéria que o professor pediu para que todos estudassem. Mas a segunda, que valia nove pontos, perguntava o seguinte:
- Qual pneu do carro em que viajaram no final de semana furou?
Tamanha foi a surpresa dos alunos! Não precisava muito esforço para saber que somente uma coincidência muito grande os faria acertar aquela questão. Então, um tanto envergonhado, um dos meninos chamou o mestre e contou-lhe a verdade. O mestre pediu a ele que respondesse a primeira pergunta e que, se estivesse certa, lhe daria os 10 pontos.
Os outros meninos não conseguiram resolver a prova e cada um deles tirou nota 1. Não é necessário dizer que a verdade sobressai em qualquer que seja a circunstância...
É bom lembrar que quando falamos a verdade não corremos o risco mais tarde de passar por uma situação difícil, pois não teremos que esconder a realidade de ninguém. Sabemos que colheremos os frutos daquelas sementes que plantamos.
Autor Desconhecido 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

O aluno computador


Era uma vez um jovem casal muito feliz. Ela estava grávida e eles esperavam com grande ansiedade o filho que nasceria.
Transcorridos os nove meses de gravidez, ela deu à luz um lindo computador! Que felicidade ter um computador como filho! Era o filho que desejavam! Por isso eles haviam rezado muito, durante toda a gravidez.. O batizado foi uma festança. Deram-lhe o nome de Memorioso, porque julgavam que uma memória perfeita é o essencial para uma boa educação. Educação é memorização. Crianças com memória perfeita vão bem na escola e não têm problemas para passar no vestibular.
E foi isso mesmo que aconteceu. Memorioso memorizava tudo o que os professores ensinavam. E não reclamava. Seus companheiros reclamavam, diziam que aquelas coisas que lhes eram ensinadas não faziam sentido. Não aprendiam. Tiravam notas ruins. Ficavam de recuperação, o que não acontecia com Memorioso.
Ele memorizava com a mesma facilidade a maneira de extrair raiz quadrada, reações químicas, fórmulas de física, acidentes geográficos, datas de eventos históricos, regras de gramática, livros inteiros. A memória de Memorioso era perfeita.
Ele só tirava dez. E isso era motivo de grande orgulho para os seus pais. Os outros casais, pais e mães dos colegas de Memorioso, morriam de inveja. Quando seus filhos chegavam em casa trazendo boletins com notas vermelhas, eles gritavam: “Por que você não é como o Memorioso?”.
Memorioso foi o primeiro no vestibular. O cursinho que ele frequentara publicou sua fotografia em outdoors. Apareceu na televisão como exemplo a ser seguido por todos os jovens. Na universidade, foi a mesma coisa. Só tirava dez. Chegou, finalmente, o dia tão esperado: a formatura.
Memorioso foi o grande herói, elogiado pelos professores. Ganhou medalhas e mesmo uma bolsa para doutoramento no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Depois da cerimônia acadêmica, estavam todos felizes no jantar. Até que uma linda moça se aproximou de Memorioso: “Eu gostaria de lhe fazer uma pergunta”, disse a jovem. “Pode fazer”, respondeu Memorioso, confiante.
Ele sabia todas as respostas. Aí ela fez a pergunta: “De tudo o que você tem memorizado, o que mais te comove?”.
Memorioso ficou em silêncio. Aquela pergunta nunca lhe havia sido feita. Os circuitos de sua memória funcionavam com a velocidade da luz procurando a resposta. Mas ela não estava registrada em sua memória. Onde poderia estar? Seu rosto ficou vermelho. Começou a suar. Sua temperatura subiu. E, de repente, seus olhos ficaram muito abertos, parados, e se ouviu um chiado estranho dentro de sua cabeça, enquanto a fumaça saía por suas orelhas.
Memorioso primeiro travou. Deixou de responder a estímulos. Depois apagou, entrou em coma. Levado às pressas para o hospital de computadores, verificaram que o seu disco rígido estava irreparavelmente danificado. Há perguntas para as quais a memória perfeita não consegue responder. É preciso coração.

                                     Rubem Alves

Fonte: https://disqus.com/home/forums/revistaeducaca

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

"Minha pátria educadora"

Minha pátria educadora começará cuidando de cada criança brasileira, desde sua gestação: não deixará a futura mãe sem o apoio necessário para cuidar de seu filho, antes mesmo de ele nascer. Desde o nascimento e na primeira infância, a pátria educadora garantirá o acesso de toda criança aos meios para promover seu desenvolvimento intelectual com o necessário acompanhamento, no convívio familiar e com a colaboração de instituições especializadas.
Minha pátria educadora oferecerá escola com qualidade a cada um de seus filhos, a partir dos quatro anos de idade, independentemente da renda da família e da receita fiscal da cidade na qual a criança viva. Aos seis anos, elas já deverão estar capacitadas a ler, a fazer as operações básicas da aritmética e a seguir estudos especiais; até os 18 anos, crianças e jovens terão escola em horário integral, com professores muito bem remunerados, com dedicação exclusiva, avaliados em seus trabalhos, usando os mais modernos instrumentos pedagógicos que a tecnologia da informação oferece à prática pedagógica, além dos equipamentos esportivos e culturais para complementar a formação dos alunos.
As escolas deixarão de ser carroças e passarão a ser naves para o futuro. Os professores terão o conhecimento e o gosto para pilotar as salas de aula do futuro, com equipamentos e comportamentos apropriados à velocidade com que o saber avança e se espalha.
Na minha pátria educadora os professores serão reverenciados. Não precisarão fazer greves, e os sindicatos de professores se transformarão em “sindicatos da educação”, com a participação também dos servidores e dos pais, militando por todos os aspectos educacionais.
O meu Brasil educador não se contentará em ter suas crianças matriculadas, desejará ter todas elas frequentando, assistindo, permanecendo na escola até concluir o ensino médio e adquirindo o conhecimento necessário para participarem do mundo moderno: capazes, cada uma delas, de se deslumbrar com as belezas, entender o funcionamento e se indignar com as injustiças do mundo, falar seus idiomas e dispor de um ofício para se inserir produtivamente no mercado.
Minha pátria educadora não aceitará a insanidade do desperdício de um único cérebro de seus habitantes, por falta de acesso à educação; nem a imoralidade da oferta de educação com qualidade desigual entre suas crianças e jovens; os filhos dos pobres terão acesso a escolas com a mesma qualidade que as dos filhos dos ricos. E todos aqueles que forem portadores de alguma dificuldade especial receberão o necessário apoio médico e pedagógico para compensar as deficiências.
Com essas características, a escola de minha pátria educadora fechará a torneira por onde pingam, todos os anos, novos analfabetos adultos e erradicará, em poucos anos, o estoque de adultos iletrados, herdados por séculos da nossa pátria ‘deseducadora’.
Mas a educação não se faz apenas na escola, e a pátria educadora incorporará as famílias, a mídia e toda a sociedade no processo educacional de suas crianças e jovens. Para ser uma pátria educadora, minha nação precisará ser uma imensa escola, do tamanho do Brasil. E o nosso futuro terá a cara de suas escolas, bonitas, confortáveis, com professores entusiasmados e crianças felizes nelas
Graças a isso, na minha pátria educadora, a criminalidade contra jovens e por jovens será um fenômeno muito raro; não haverá milhares de crianças vítimas de assassinos, nem dezenas delas transformadas em assassinos.
Os jovens disputarão o ingresso no ensino superior em condições de igualdade. Todos com a chance determinada pelo talento, persistência e vocação: a universidade da pátria educadora será povoada por alunos com a necessária competência para levar o Brasil ao mundo da inovação nas artes, na ciência e na tecnologia. Minha pátria educadora fará parte dos campeões do mundo em conhecimento.
Na minha pátria educadora, o lema da bandeira será “Educação é progresso”, porque sem isso, o lema “Pátria educadora” não passa de um slogan publicitário. Até porque, na pátria educadora, os governos que desequilibram as finanças não fazem ajustes cortando programas educacionais.
Decididamente, minha pátria brasileira não é, ainda, educadora. Por isso, ainda falta muita luta para que o slogan vire um lema e se faça realidade.
 Cristovam Buarque
 (Professor e Senador)

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Reflexão: Cenoura, Ovos ou Café?


Uma filha se queixou a seu pai sobre sua vida e de como as coisas estavam difíceis para ela. Ela já não sabia mais o que fazer e queria desistir, estava cansada de lutar e combater. Parecia que assim que um problema estava resolvido um outro surgia. 
Seu pai com muita paciência levou-a até a cozinha, encheu três panelas com água e colocou cada uma delas em fogo alto.
Quando as panelas começaram a ferver ele colocou em uma delas cenouras, em outra colocou ovos e, na última, pó de café. Deixou que tudo fervesse, sem dizer uma palavra.
A filha deu um suspiro e esperou impacientemente, imaginando o que ele estaria fazendo.
Cerca de vinte minutos depois, ele apagou as bocas de gás. Pegou as cenouras e as colocou em uma outra tigela.
Retirou os ovos e os colocou em uma outra tigela e por último pegou o café com uma concha e o colocou em outra tigela.
Virando-se para ela, perguntou:
- Querida, o que você está vendo?
Cenouras, ovos e café.
Ele trouxe para mais perto e pediu-lhe para experimentar as cenouras. Ela obedeceu e notou que as cenouras estavam macias. Então, pediu-lhe que pegasse um ovo e o quebrasse. Ela obedeceu e depois de retirar a casca verificou que o ovo endurecera com a fervura.
Finalmente, ele lhe pediu que tomasse um gole do café. Ela sorriu ao provar seu aroma delicioso e sem nada entender perguntou humildemente:
- O que isto significa, pai?
E ele explicou:
- A cenoura, os ovos e o café, enfrentaram a mesma adversidade - a água fervendo -, mas cada um reagiu de maneira diferente. A cenoura entrara forte, firme e inflexível, mas depois de ter sido submetida à água fervendo, ela amoleceu e se tornar frágil.
- Os ovos eram frágeis. Sua casca fina havia protegido o líquido interior, mas depois de terem sido colocados na água fervendo, seu interior se tornou mais rijo.
- O pó de café, contudo, era incomparável. Depois que fora colocado na água fervente, ela havia mudado a água.
Ele perguntou:
- Qual deles é você? Quando a adversidade bate à sua porta, como você responde? Você é uma cenoura, um ovo ou um pó de café?

domingo, 21 de outubro de 2012

Texto Pedagógico - Currículo Escolar

Conta-se que vários bichos decidiram fundar uma escola. Reuniram-se e começaram a escolher as disciplinas. O Pássaro insistiu para que houvesse aulas de vôo. O Peixe, para que o nado fizesse parte do currículo também. O Esquilo achou que a subida perpendicular em árvores era fundamental. E o Coelho queria de qualquer jeito que a  corrida fosse incluída. E assim foi feito. Incluíram tudo, mas cometeram um grande erro. Insistiram para que  todos os bichos praticassem todos os cursos oferecidos. O Coelho foi magnífico na corrida, ninguém corria como ele. Mas queriam ensiná-lo a voar. Colocaram-no numa árvore e disseram: "Voa Coelho". Ele saltou lá
 de cima e "pluft", coitadinho, quebrou as pernas. O Coelho não aprendeu a voar e acabou sem poder correr também. O Pássaro voava como nenhum outro, mas o obrigaram a cavar buracos como uma toupeira. Quebrou o bico e as asas e, depois, não conseguia voar tão bem, e nem mais cavar buracos...

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A Formiga

Todos os dias, uma formiga chegava cedinho ao escritório e pegava duro no trabalho.
A formiga era produtiva e feliz.
O gerente marimbondo estranhou a formiga trabalhar sem supervisão.
Se ela era produtiva sem supervisão, seria ainda mais se fosse supervisionada e colocou uma barata, que preparava belíssimos relatórios e tinha muita experiência como supervisora.
A primeira ocupação da barata foi a de padronizar o horário de entrada e saída da formiga.
Logo, a barata precisou de uma secretária para ajudar a preparar os relatórios e contratou também uma aranha para organizar os arquivos e controlar as ligações telefônicas.
O marimbondo ficou encantado com os relatórios da barata e pediu também gráficos com indicadores e análise das tendências que eram mostradas em reuniões.
A barata, então, contratou uma mosca e comprou um computador com impressora colorida.
Logo, a formiga produtiva e feliz, começou a se lamentar de toda aquela movimentação de papeis e reuniões improdutivas, etc...
O cargo foi dado a uma cigarra, que mandou colocar carpete no seu escritório e comprar uma cadeira especial.
A nova gestora, cigarra, logo, precisou de um computador e de uma assistente (sua assistente na empresa anterior) para ajudá-la a preparar um plano estratégico de melhorias e um controle do orçamento para a área onde trabalhava a formiga, que já não cantarolava mais e cada dia se tornava mais chateada e improdutiva.
A cigarra, então, convenceu o gerente, marimbondo, que era preciso fazer um estudo de clima, mas, o marimbondo, ao rever as cifras, se deu conta de que a unidade na qual a formiga trabalhava já não rendia como antes e contratou a coruja, uma prestigiada consultora de organizações e métodos muito famosa para que fizesse um diagnóstico da situação.
A coruja permaneceu três meses nos escritórios e emitiu um volumoso relatório com vários volumes que concluía:
_ Há muita gente nesta empresa!
E adivinha quem o marimbondo mandou demitir?
A formiga, claro, porque ela andava muito desmotivada, aborrecida e improdutiva.

                                            Joelson S. Manfredine

terça-feira, 27 de março de 2012

Quando a Escola é de Vidro (Ruth Rocha)



Naquele tempo eu até que achava natural que as coisas fossem daquele jeito.
Eu nem desconfiava que existissem lugares muito diferentes...
Eu ia para a escola todos os dias de manhã e quando chegava, logo, logo, eu tinha que me meter no vidro.
É, no vidro!
Cada menino ou menina tinha um vidro e o vidro não dependia do tamanho de cada um, não!
O vidro dependia da classe em que agente estudava.
Se você estava no primeiro ano ganhava um vidro de um tamanho.
Se você fosse do segundo ano seu vidro era um pouquinho maior.
E assim, os vidros iam crescendo à medida que você ia passando de ano.
Se não passasse de ano, era um horror.
Você tinha que usar o mesmo vidro do ano passado?
Coubesse ou não coubesse.
Aliás nunca ninguém se preocupou em saber se a gente cabia nos vidros.
E pra falar a verdade, ninguém cabia direito.
Uns eram muito gordos, outros eram muito grandes, uns eram pequenos e ficavam afundados no vidro, nem assim era confortável.
Os muitos altos de repente se esticavam e as tampas dos vidros saltavam longe, às vezes até batiam no professor.
Ele ficava louco da vida e atarraxava a tampa com forço, que era pra não sair mais.
A gente não escutava direito o que os professores diziam, os professores não entendiam o que a gente falava...
As meninas ganhavam uns vidros menores que os meninos.
Ninguém queria saber se elas estavam crescendo depressa, se não cabiam nos vidros, se respiravam direito...
A gente só podia respirar direito na hora do recreio ou na aula de educação física.
Mas aí a gente já estava desesperado, de tanto ficar preso e começava a correr, a gritar, a bater uns nos outros.
As meninas, coitadas, nem tiravam os vidros no recreio.E na aula de Educação Física elas ficavam atrapalhadas, não estavam acostumadas a ficarem livres, não tinham jeito nenhum para Educação Física.
Dizem, nem sei se é verdade, que muitas meninas usavam vidros até em casa.
E alguns meninos também.
Estes eram os mais tristes de todos.
Nunca sabiam inventar brincadeiras, não davam risada á toa, uma tristeza!
Se a gente reclamava?
Alguns reclamavam.
Então os grandes diziam que sempre tinha sido assim; ia ser assim o resto da vida.
A minha professora dizia que ela sempre tinha usado vidro, até para dormir, por isso é que ela tinha boa postura.
Uma vez um colega meu disse pra professora que existem lugares onde as escolas não usam vidro nenhum, e as crianças podem crescer á vontade.
Então a professora respondeu que era mentira.Que isso era conversa de comunistas.Ou até coisa pior...
Tinha menino que tinha até que sair da escola porque não havia jeito de se acomodar nos vidros.E tinha uns que mesmo quando saiam dos vidros ficavam do mesmo jeitinho, meio encolhidos, como se estivessem tão acostumados que estranhavam sair dos vidros.
Mas uma vez veio para a minha escola um menino, que parece que era favelado, carente, essas coisas que as pessoas dizem pra não dizer que era pobre.
Ai não tinha vidro pra botar esse menino.
Então os professores acharam que não fazia mal não, já que ele não pagava a escola mesmo...
Então o Firuli, ele se chamava Firuli, começou a assistir as aulas sem estar dentro do vidro.
Engraçado é que o Firuli desenhava melhor que qualquer um, o Firuli respondia perguntas mais depressa que os outros, o Firuli era muito mais engraçado...
Os professores não gostavam nada disso...
Afinal, o Firuli podia ser um mau exemplo pra nós...
Nós morríamos de inveja dele, que ficava no bem-bom, de perna esticada, quando queria ele espreguiçava, e até meio que gozava a cara da gente que vivia preso.
Então um dia um menino da minha classe falou que também não ia entrar no vidro.
Dona Demência ficou furiosa, deu um coque nele e ele acabou tendo que se meter no vidro, como qualquer um.
Mas no dia seguinte duas meninas resolveram que não iam entrar no vidro também:
_Se Firuli pode por que é que nós não podemos?
Mas dona Demência não era sopa.
Deu um croque em cada uma, e lá se foram elas, cada uma pro seu vidro...
Já no outro dia a coisa tinha engrossado.
Já tinha oito meninos que não queriam saber de entrar nos vidros.
Dona Demência perdeu a paciência e mandou chamar seu Hermenegildo que era o diretor lá da escola.
Hermenegildo chegou muito desconfiado:
Aposto que essa rebelião foi fomentada pelo Firuli.È um perigo esse tipo de gente aqui na escola.Um perigo!
A gente não sabia o que queria dizer fomentada, mas entendeu muito bem que ele estava falando mal do Firuli.
Seu Hermenegildo não conversou mais.Começou pegar os meninos um por um e enfiar á força dentro dos vidros.
Mas nós estávamos loucos para sair também, e para cada um que ele conseguia enfiar dentro do vidro, já tinha dois fora.
E todo mundo começou a correr do seu Hermenegildo, que era para ele não pegar a gente, e na correria começamos a derrubar os vidros.
E quebramos um vidro, depois quebramos outro e outro mais e dona Demência já estava na janela gritando:
_SOCORRO! VÂNDALOS! BÁRBAROS!
(Pra ela bárbaro era xingação).
Chamem os Bombeiros, o Exército da Salvação, a Polícia Feminina...
Os professores das outras classes mandaram cada um, um aluno para ver o que estava acontecendo.
E quando os alunos voltaram e contaram a farra que estava na 6ª série todo mundo ficou assanhado e começou a sair dos vidros.
Na pressa de sair começaram a esbarrar uns nos outros e os vidros começaram a cair e a quebrar.
Foi um custo botar ordem na escola e o diretor achou melhor mandar todo mundo pra casa, que era pra pensar num castigo bem grande, pro dia seguinte.
Então eles descobriram que a maior parte dos vidros estava quebrada e que ia ficar muito caro comprar aquela vidraria toda de novo.
Então diante disso seu Hermenegildo pensou um bocadinho, e começou a contar pra todo mundo que em outros lugares tinha umas escolas que não usavam vidro nem nada, e que dava bem certo, as crianças gostavam muito mais.
E que de agora em diante ia ser assim: nada de vidro, cada um podia se esticar um bocadinho, não precisava ficar duro nem nada, e que a escola agora ia se chamar Escola Experimental.
Dona Demência, que apesar do nome não era louca nem nada, ainda disse timidamente:
_Mas seu Hermenegildo, Escola Experimental não é bem isso...
Seu Hermenegildo não se perturbou:
_Não tem importância.A gente começa experimentando isso.Depois a gente experimenta outras coisas...
E foi assim que na minha terra começaram a aparecer as Escolas Experimentais.
Depois aconteceram muitas coisas, que um dia eu ainda vou contar... 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Texto Pedagógico: João-de-Barro Engenheiro

Dona Graúna era a professora velha e boazinha que ensinava às avezinhas da floresta a ler, escrever e contar. Tinha os olhos pequenos e óculos enorme por cima do nariz e, quando se zangava, ficava de cara vermelha e agitava as asas.
            Acontece que, quase sempre, dona Graúna estava de cara vermelha e agitando as asas, porque todos os seus alunos eram levados da breca. Todos, não. Havia Joãozinho, um pássaro pardo e estudioso, que ficava quieto, prestando atenção à aula, enquanto os outros faziam estrepolia.
            Dona Graúna elogiava: “Este Joãozinho vai longe... É aluno como os do meu tempo”. E aí ficava falando duas horas de como era no tempo dela.
            Enquanto os outros alunos pintavam os nomes nas paredes, saltitavam de carteira em carteira, cochichavam recados, sujavam os móveis e faziam artimanhas, o Joãozinho estudava.
            E, quando não estava na aula estudando, quase nunca acompanhava os colegas pelos passeios na floresta. Tinha uma mania esquisita e todos riam dele. Joãozinho gostava de ficar brincando com barro. Ia para a  beira dos regatos e ficava amassando barro, com o bico, fazendo coisas. Um dia, quando o Pintassilguinho o viu brincando, pôs-lhe um apelido gozado: João-de-Barro. Depois disto, todo o mundo na escola passou a chamá-lo assim. Mas Joãozinho não se importava com o apelido e, para dizer bem a verdade até gostava dele.
            Uma manhã, saiu de casa com aqueles planos todos e, escolhendo um jenipapeiro bem bonito, começou a trabalhar. Iá ao regato, amassava barro e o trazia no bico, até o galho escolhido, no pé de jenipapo. Seus antigos colegas, como sempre, passaram por ali e riam dele. Achavam muito engraçado aquelas paredes fracas que o Joãozinho estava erguendo, no alto da árvore.
            Mas, depois de um mês, ninguém mais ria. Até pelo contrário, todos tinham os olhos arregalados de espanto: Joãozinho havia construído, no alto da árvore, um palacete, com dois andares, portas e tudo. E havia se mudado de um feio ninho de capim – como os de todos os seus amigos – para aquela casinha linda!
            Ah! Aí é que foi. Nunca a passarada da floresta teve tanta inveja. Mas o que fazer? Nenhum dos outros passarinhos tinha sido bom estudante e nem tinha conhecimentos e técnica para fazer planos e projetar uma casinha daquelas. E tiveram mesmo de se contentar em continuar vivendo em ninhos de capim.
            Até hoje, só João mora em casa de barro sólida e bonita. E é o único pássaro arquiteto da natureza.                                       (André de Carvalho)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Parábola do Aquário

Era uma vez um aquário, onde viviam peixes grandes, médios e pequenos. Ali imperava a lei do mais forte. Os alimentos atirados no aquário eram disputados por todos. Primeiro comiam os maiores. O que sobrava destes, era devorado pelos médios. E o que sobrava dos médios era disputado pelos pequenos. Na falta de outros alimentos, os grandes devoravam os médios e estes, por sua vez, devoravam os pequenos.
Ora, havia um peixinho muito pequeno que morava no fundo do aquário, onde estava a salvo da fome e da gula dos demais. Ali, naquelas profundezas, poucas vezes caía algum alimento. Mas, o peixinho, ao invés de maldizer a sua sorte, enganava a fome distraindo-se a contemplar os desenhos dos azulejos, as plantas, a areia branca e as pedrinhas brilhantes que enfeitavam o fundo do aquário.
Um belo dia, o peixinho descobriu um ralo por onde saía a água do aquário. Admirado exclamou:

- Ué! Então este mundo não é tudo. Existe outro lugar onde se pode viver? Para onde irá esta água que não pára de escorrer?

E o peixinho curioso, tentou passar pelo ralo. Como os vãos fossem muito estreitos, ele se dispôs a fazer sacrifícios e emagrecer até poder passar para o outro lado.

E foi assim que mais tarde, bem mais magro e ainda assim perdendo algumas escamas na travessia, ele conseguiu seu intento. E foi assim que pela primeira vez na vida, ele conheceu o que era água corrente. Uma delícia! Uma maravilha! O peixinho ia pulando feliz pelo rego d'água, deslumbrado com tudo. E o rego d'água levou o peixinho até um regato.
No regato, mais água ainda! E a correnteza mais forte. Nem era preciso nadar. Bastava soltar o corpo. Que maravilha! E o sol? E os barquinhos de papel? Que coisa mais linda! E aqueles bobos lá no aquário, pensando que aquilo era tudo, aquela água suja e parada! Coitados... E o regato levou o peixinho até o rio...
Não é possível! Isto não existe! Olha quanta água! Parece não ter fim. Quanta comida! Quanto sol! Quanta luz! Quanta beleza! E foi assim, extasiado, maravilhado, quase não acreditando nos seus próprios olhos, que o peixinho, levado pelo rio, chegou, enfim, ao mar...
Ali, diante daquele infinito de água, de alimento, de luz, de cores, de plantas, de um mundo de coisas maravilhosas, diante daquela majestade toda, o peixinho chorou. Chorou comovido, agradecido, porque a alegria era tanta que não cabia dentro de si. E chorou sobretudo de pena de seus companheiros que tinham ficado no aquário, naquelas águas poluídas, escuras, paradas, estagnadas, espremidos, pensando viver no melhor dos mundos. E o peixinho, então, resolveu voltar e contar a boa nova a todos.
E o peixinho voltou. Do mar para o rio, com imensos sacrifícios, porque agora a viagem era contra a correnteza. Ele nadou para o regato e do regato para o rego d'água, e do rego d'água para o fundo do aquário. E atravessou o ralo de volta.
Desse dia em diante, começou a circular pelo aquário, um boato de que havia um peixinho contando coisas mirabolantes: falando de um lugar muito melhor para viver; um lugar de paz e amor, um lugar de fartura infinita, onde ninguém precisava fazer sacrifícios, nem se devorar uns aos outros. E todos correram ao fundo do aquário para saber das novidades. Os grandes, os médios, os pequenos, todos queriam saber o que era preciso fazer para chegar a esse mundo maravilhoso...
E o peixinho, mostrando-lhes o ralo, explicou que para chegar a este mundo, era preciso algum sacrifício, pois a passagem era realmente estreita. Segundo o tamanho, uns teriam que sacrificar-se mais, outros menos. E os peixinhos pequenos passaram a seguir o peixinho, enquanto os médios e os grandes consideravam-no um louco, um visionário... Onde já se viu? Impossível passar por aquele vãozinho tão estreito. Só um louco mesmo!...
E a história do peixinho se alastrou. De tal maneira modificou a vida do aquário e perturbou o sossego dos peixes grande e médios, que estes acabaram por matar o peixinho para pôr um fim naquelas besteiras. Mas o peixinho não morreu. Continuava vivendo, pois sua mensagem, imortal, passava de geração em geração...
Até hoje a história do peixinho é lembrada no aquário. Até hoje há os que acreditam e os que não acreditam. E até hoje há os que podem passar pelo ralo e há os que jamais conseguirão fazê-lo, porque quanto maior e mais poderoso, tanto maior será o sacrifício exigido.

(Autor desconhecido)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

FÁBULA

                           A RATOEIRA

Um rato, olhando pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua 
esposa abrindo um pacote.
    Pensou logo no tipo de comida que poderia haver ali.
    Ao descobrir que era uma ratoeira, ficou aterrorizado.
    Correu ao pátio da fazenda advertindo a todos:
    "- Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira na casa!!! "
    A galinha, disse:
    "- Desculpe-me Sr. Rato, eu entendo que isso seja um grande

problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me
incomoda."
    O rato foi até o porco e lhe disse:
    "- Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira!!!"
    "- Desculpe-me Sr. Rato, disse o porco, mas não há nada que 

eu possa fazer, a não ser rezar. Fique tranqüilo que o senhor será 
lembrado nas minhas preces."
    O rato dirigiu-se então à vaca. Ela lhe disse:
    "- O que Sr. Rato? Uma ratoeira? Por acaso estou em perigo?

Acho que não! "
    Então o rato voltou para a casa, cabisbaixo e abatido, para 

encarar a ratoeira do fazendeiro.
    Naquela noite ouviu-se um barulho, como o de uma ratoeira 

pegando sua vítima. A mulher do fazendeiro correu para ver o 
que havia pego. No escuro, ela não viu que a ratoeira havia pego 
a cauda de uma cobra venenosa. E a cobra picou a mulher...
    O fazendeiro a levou imediatamente ao hospital. Ela voltou com 

febre. Todo mundo sabe que para alimentar alguém com febre, 
nada melhor que uma canja de galinha. O fazendeiro pegou seu
cutelo e foi providenciar o ingrediente principal.
    Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos 

vieram visitá-la. Para alimentá-los o fazendeiro matou o porco. 
A mulher não melhorou e acabou morrendo. Muita gente veio 
para o funeral. O fazendeiro então sacrificou a vaca, para 
alimentar todo aquele povo...
                                                    (autor - desconheço)
  

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O Sonho dos Ratos - Fábula de Rubem Alves


Era uma vez um bando de ratos que vivia no buraco do assoalho de uma casa velha. Havia ratos de todos os tipos: grandes e pequenos, pretos e brancos, velhos e jovens, fortes e fracos, da roça e da cidade.
Mas ninguém ligava para as diferenças, porque todos estavam irmanados em torno de um sonho comum: um queijo enorme, amarelo, cheiroso, bem pertinho dos seus narizes. Comer o queijo seria a suprema felicidade...Bem pertinho é modo de dizer.
Na verdade, o queijo estava imensamente longe porque entre ele e os ratos estava um gato... O gato era malvado, tinha dentes afiados e não dormia nunca. Por vezes fingia dormir. Mas bastava que um ratinho mais corajoso se aventurasse para fora do buraco para que o gato desse um pulo e, era uma vez um ratinho...Os ratos odiavam o gato.
Quanto mais o odiavam mais irmãos se sentiam. O ódio a um inimigo comum os tornava cúmplices de um mesmo desejo: queriam que o gato morresse ou sonhavam com um cachorro...
Como nada pudessem fazer, reuniram-se para conversar. Faziam discursos, denunciavam o comportamento do gato (não se sabe bem para quem), e chegaram mesmo a escrever livros com a crítica filosófica dos gatos.Diziam que um dia chegaria em que os gatos seriam abolidos e todos seriam iguais. "Quando se estabelecer a ditadura dos ratos", diziam os camundongos, "então todos serão felizes"...
- O queijo é grande o bastante para todos, dizia um.
- Socializaremos o queijo, dizia outro.
Todos batiam palmas e cantavam as mesmas canções.
Era comovente ver tanta fraternidade. Como seria bonito quando o gato morresse! Sonhavam. Nos seus sonhos comiam o queijo. E quanto mais o comiam, mais ele crescia. Porque esta é uma das propriedades dos queijos sonhados: não diminuem: crescem sempre. E marchavam juntos, rabos entrelaçados, gritando: "o queijo, já!"...
Sem que ninguém pudesse explicar como, o fato é que, ao acordarem, numa bela manhã, o gato tinha sumido. O queijo continuava lá, mais belo do que nunca. Bastaria dar uns poucos passos para fora do buraco. Olharam cuidadosamente ao redor. Aquilo poderia ser um truque do gato. Mas não era.
O gato havia desaparecido mesmo. Chegara o dia glorioso, e dos ratos surgiu um brado retumbante de alegria. Todos se lançaram ao queijo, irmanados numa fome comum. E foi então que a transformação aconteceu.
Bastou a primeira mordida. Compreenderam, repentinamente, que os queijos de verdade são diferentes dos queijos sonhados. Quando comidos, em vez de crescer, diminuem.
Assim, quanto maior o número dos ratos a comer o queijo, menor o naco para cada um. Os ratos começaram a olhar uns para os outros como se fossem inimigos. Olharam, cada um para a boca dos outros, para ver quanto queijo haviam comido. E os olhares se enfureceram.
Arreganharam os dentes.Esqueceram-se do gato. Eram seus próprios inimigos. A briga começou. Os mais fortes expulsaram os mais fracos a dentadas. E, ato contínuo, começaram a brigar entre si.
Alguns ameaçaram a chamar o gato, alegando que só assim se restabeleceria a ordem. O projeto de socialização do queijo foi aprovado nos seguintes termos:
“Qualquer pedaço de queijo poderá ser tomado dos seus proprietários para ser dado aos ratos magros, desde que este pedaço tenha sido abandonado pelo dono”.
Mas como rato algum jamais abandonou um queijo, os ratos magros foram condenados a ficar esperando.Os ratinhos magros, de dentro do buraco escuro, não podiam compreender o que havia acontecido.
O mais inexplicável era a transformação que se operara no focinho dos ratos fortes, agora donos do queijo. Tinham todo o jeito do gato o olhar malvado, os dentes à mostra.
Os ratos magros nem mais conseguiam perceber a diferença entre o gato de antes e os ratos de agora. E compreenderam, então, que não havia diferença alguma. Pois todo rato que fica dono do queijo vira gato. Não é por acidente que os nomes são tão parecidos. 
                                             

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

OS URUBUS E SABIÁS (Texto Pedagógico)

Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que os bichos falavam... Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para o canto, decidiram que, mesmo contra a natureza, eles haveriam de se tornar grandes cantores. E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejaram dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas, e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam a permissão de mandar nos outros.
Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em início de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamavam por Vossa Excelência. Tudo ia muito bem até que a doce tranqüilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida. A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas com os sabiás... Os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa, e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito.
“__Onde estão os documentos dos seus concursos?” E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam, simplesmente...
 “__Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem.” E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam sem alvarás...
MORAL: Em terra de urubus diplomados não se ouve canto de sabiá.
                                                       Rubem Alves
                                                         
                                                  AVE: SABIÁ

Nome comum: Sabiá laranjeira
Nome científico: Turdus rufiventris
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe; Ave                         
Ordem: Passeriformes
Família Turdidae
Onde é encontrado: Sua distribuição ocorre  em  todo   território brasileiro .
Tempo de vida: em torno de 30 anos
Nº de filhotes: número de ovos de cada postura é quase sempre 2, às vezes 3. Cada fêmea choca 3 vezes por ano, podendo tirar até 6 filhotes por temporada.
Características: O filhote nasce aos treze dias depois de a fêmea deitar e sai do ninho também aos treze dias de idade . O sabiá adulto mede 25cm de comprimento e pesa
 68g o macho  e  a fêmea 78 g. Tem plumagem parda, com exceção da região do ventre, destacada pela cor vermelho-ferrugem, levemente alaranjada, e bico amarelo-escuro. Não há dimorfismo sexual, pois, ambos são iguais.
É ave de canto muito apreciado, que se assemelha ao som de uma flauta. Canta principalmente ao alvorecer e à tarde. O canto serve para demarcar território e, no caso dos machos, para atrair a fêmea. A fêmea também canta, mas numa frequência bem menor que o macho.
O canto do sabiá-larajeira é parcialmente aprendido, havendo linhagens geográficas de tipos de canto, e se a ave conviver desde pequena com outras espécies, pode ser influenciada pelo canto delas e passar a ter um canto “impuro”. 
Sua nutrição se compõe basicamente de insetos, larvas, minhocas, e frutas maduras, incluindo frutas cultivadas como o mamão, a laranja e o abacate. Come coquinhos de várias espécies de palmeiras e de espécies introduzidas, como o dendê. Cospe os caroços após cerca de uma  hora, contribuindo assim para a dispersão dessas palmeiras, comportamento apresentado também por outros sabiás.
Pode fazer seu ninho - uma tigela profunda de argila e folhas secas - em beirais de telhados. A construção de ninhos pode se tornar confusa em certas ocasiões: quando o local escolhido é formado por vãos entre numerosos suportes iguais de um telhado, o sabiá-laranjeira pode construir vários ninhos ao mesmo tempo, por confundir os vãos. Põe ovos verde-azulados com pintas roxas.
Macho e fêmea constroem o ninho juntos utilizando gravetos, fibras vegetais e barro, onde a fêmea coloca de 3 a 4 ovos, de coloração esverdeada com pintas cor de ferrugem. O período de incubação dura em torno de 13 dias. 
Na natureza, é encontrado em casais e grupos familiares quando em processo de criação. É uma ave de ambientes abertos, preferindo viver em bordas de matas, pomares, capoeiras, entorno de estradas, praças e quintais, sempre por perto de água abundante. É um pássaro territorial: demarca uma área geográfica quando está em processo de reprodução e não aceita a presença de outras aves da espécie. Começa a cantar antes mesmo de clarear o dia.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

JOÃO-DE-BARRO (Texto Pedagógico)

O que faz este pássaro? Constrói sua casa em parceria com
sua companheira de ninho. A época da cria se aproxima e ele
precisa de algum lugar seguro. O que faz em primeiro lugar?
Ele sente o vento para posicionar corretamente a porta de
entrada. Entãoele entra em sintonia com o meio ambiente
onde estará sua casa, percebe a resistência dos galhos,
observa a proximidade de abelhas ou outros insetos perni-
ciosos à sua sobrevivência. Ele quer ter segurança, proteção
e dar, ao mesmo tempo, todas estas condições aos filhotes.
Tem vários PROFESSORES exatamente iguais ao João-de-
Barro. Eles constroem alguma coisa nas mentes e nos 
corações de seus alunos, observando o contexto deles, como
o pássaro observa e sente o vento, procura perceber a segu-
rança, o interesse e está atento aos perigos que rondam suas 
classes. Este professor deixa algum legado para seus alunos,
e neste sentido, trabalha. Os meses vão passando e ele vai
construindo a casa do saber, com a porta aberta ao ar   e
protegida, ao mesmo tempo, contra a tempestade. Ele não é
o único a construir, sabe da necessidade da complementarie-
dade de alguns colegas seus, mas, em última análise, ele quer
desenvolver a futura vida que nascerá dentro de sua classe. E
este nascimento será, sem dúvida, o ponto de partida para
estabelecer os alicerces da cidadania.

PARABÉNS A VOCÊ PROFESSOR (A)  QUE DEDICA 
SUA VIDA PREPARANDO O AMANHÃ DAS PESSOAS!



segunda-feira, 8 de março de 2010

TEXTO PEDAGÓGICO

 O  rei  leão,  nobre  cavalheiro,  resolveu  certa  vez
que  nenhum  de  seus súditos haveria de morrer na 
ignorância. Que bem maior  que a  educação poderia 
existir? Convocou o urubu, impecavelmente  trajado
em sua beca doutoral, companheiro de  preferências
e de churrascos,  para assumir  a  responsabilidade 
de organizar e  redigir a  cruzada do saber.  Que  os
bichos precisavam de educação, não havia  dúvidas. 
O problema primeiro era o que ensinar.  Questão  de
currículo: estabelecer as coisas sobre  as  quais os
mestres iriam  falar e  os  discipulos  iriam aprender.
Parece que havia acordo  entre os  participantes do
grupo de trabalho, todos  urubus, é claro: os  pensa-
mentos de urubus eram os mais verdadeiros; o andar
de urubu  era o  mais  elegante;  as  preferências  de
nariz e de língua dos urubus eram as mais adequadas
para  uma  saude  perfeita; a cor  dos  urubus  era  a
mais tranquilizante; o canto  dos  urubus era o mais
bonito. Em suma: o que é bom para os urubus é  bom
para o resto dos  bichos.  E  assim  organizaram os 
currículos,  com  todo  o rigor  e precisão  que as úl-
timas  conquistas  da  didática e  da  psicologia  da
aprendizagem podiam merecer. Elaboraram-se    siste-
mas sofisticados  de  avaliação para teste  da aprendi-
zagem. Os futuros mestres foram informados da  impor-
tância do diálogo para que o ensino fosse mais eficaz
e   chegavam  mesmo, vez  por outra ,  a  citar  Martin
Buber. Isto  tudo  sem  falar  na  parafernália  tecnoló-
gica  que se importou do exterior,  máquinas  sofisti-
cadas que podiam repetir as aulas à vontade para os
mais  burrinhos, e  fascinantes  circuitos  de televisão
Ah!  Que  beleza. Tudo  aquilo  dava  uma    deliciosa
impressão de progresso e eficiência e os repórteres
não se cansavam de fotografar as luzinhas piscantes
das máquinas que haveriam de produzir o saber, como
uma linha de montagem produz um automóvel.  Questão
de organização, questão  de  técnica. Não poderia  ha-
ver    falhas. Começaram as  aulas, de clareza  meridi-
ana. Todo mundo entendia. Só que o corpo rejeitava.
Depois de uma aula sobre o cheiro e o gosto bom  da
carniça, podiam se ver grupinhos de passarinhos que
discretamente (para não ofender os mestres) vomita-
vam atrás das árvores. Por mais que fizessem ordem
unida para aprender o gingado do urubu, bastava que
se pilhassem fora da escola para que voltassem todos
os velhos e detestavéis hábitos de andar. E o pavão
e as araras não paravam de  cochichar, caçoando  da
cor dos urubus:  "Preto  é a cor  mais bonita? Uma 
ova..." E assim, as  coisas  se  desenrolaram, de fra-
casso, a despeito dos métodos cada vez mais cientí-
ficos e das estatísticas que subiam. E todos comen-
tavam, sem entender: "A educação vai muito mal..."

UMA IDÉIA A SER EXPLORADA: Para educar bem-ti-
vi  preciso gostar  de bem-ti-vi,  respeitar  seu gosto,
não ter projeto  de  tranformá-lo em urubu. Um bem-
ti-vi  será  sempre um urubu de  segunda  categoria.
    
                 Rubem Alves