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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A lenda do pássaro quero-quero

O quero-quero (Vanellus chilensis)
 é ave símbolo do Rio Grande do Sul 
Era uma vez um pássaro que vivia na floresta e não andava nada satisfeito com sua vida. Ele não sabia por que, mas todas as coisas que ele queria não davam certo. Ele era muito agitado e só sabia dizer “quero” para tudo e para todos. Sempre cantava muito alto e no seu canto somente se entendia a palavra “quero”. Quando entravam os outros pássaros, ele não sabia de que se tratava o assunto e ia logo gritando “quero”. Um dia ele achou que ninguém era amigo dele, e que todos queriam o seu mal. Ficou muito triste e saiu a andar pela floresta chorando muito. Mesmo chorando sozinho pela floresta gritava bem alto seu canto “quero”. Do alto de uma árvore estava o professor Coruja que, vendo aquele pássaro gritando tão alto e chorando muito, não se aguentou e desceu até o chão.
– O que acontece com você, pobre pássaro? Você quer ajuda? Perguntou o professor Coruja.
– Quero. Respondeu o pássaro chorão.
– Por que você grita tão alto? Você quer um amigo para conversar? Quer?
– Quero.
– Você quer parar de chorar e ficar alegre?
– Quero.
– Você quer sentar um pouco aqui perto da minha casa para conversarmos? Perguntava o professor Coruja, curioso pelas respostas do pássaro.
– Quero. Mais uma vez respondeu o pássaro.
O professor Coruja então parou e pensou: “Nossa, esse pássaro só sabe falar uma palavra e para tudo diz quero. Será que ele não sabe dizer outra coisa? Vou perguntar a ele o que realmente quer quem sabe com isso ele pare de cantar”.
– Pássaro, o que você quer?
– Quero. Respondeu o pássaro.
Então o professor Coruja novamente se surpreendeu com a resposta e disse ao pássaro:
– Meu bom pássaro, você não pode simplesmente querer as coisas. Para querer e obter algo na vida é preciso mais. Sempre precisamos ter duas vezes o querer. Você já pensou nisso?
Assim o pássaro que até então só gritava, olhou para o professor Coruja, parou de chorar e pela primeira vez se dispôs a escutar alguém.
– Quero entender isso, professor Coruja, disse o pássaro com brilho nos seus olhinhos.
– É muito simples – disse o professor Coruja. Para vivermos bem e felizes, precisamos querer duas vezes. Querer as coisas boas para nós, mas também querer as coisas boas para os outros que convivem conosco. Todos nós queremos respeito e, para sermos respeitados, precisamos respeitar os outros, ou seja, todos nós queremos ser amados, mas, para sermos amados, precisamos amar os nossos semelhantes. Com ar mais feliz o pássaro começou a entender o que acontecia e disse:
– Explique mais, professor Coruja.
– Veja, todos nós queremos proteção, não é verdade? Mas para termos proteção precisamos proteger. Nós fazemos isto quando cuidamos das coisas dos outros, então eles também cuidarão das nossas coisas. Se quisermos ter saúde, então precisamos também querer nos cuidar, querer nos alimentar bem e querer praticar esportes e querer dizer não.
– Como assim? – perguntou o pássaro, que nunca havia visto alguém falar em não querer.
– Sim, pássaro, às vezes é preciso não querer. Se você quer saúde, você não pode querer ser guloso, preguiçoso e, principalmente, você não pode querer drogas, como cigarro, a bebida e outras porcarias que só estragam a nossa saúde e a saúde dos outros.
– Ah! Agora entendi. O que realmente quero é ser feliz.
– E você deve querer ser feliz, falou o professor Coruja. Mas para querermos ser feliz é preciso também querer fazer os outros felizes. Quando fazemos os outros felizes, somos felizes também. E foi então que o pássaro alegremente disse:
– Quero-quero, quero-quero.
Despediu-se do professor Coruja com grande alegria e retornou para o campo onde morava. Até hoje esse pássaro chamado “quero-quero” vive alegremente nos campos chamando a atenção de todos com seu canto.
– Quero-quero, quero-quero…
Dizem que seu canto é para lembrar a todos que escutarem que é preciso querer duas vezes; querer o bem para si, mas também para os outros.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O gato que gostava de comer cenoura


Gato gosta de peixe, de rato, de passarinho. Não gosta de cenoura. Numa terra de gatos, um gato que gostasse de cenoura seria uma aberração, vergonha para os pais, motivo de chacota e zombaria na escola...
O nome dele era Gulliver. Gullinho. Seus pais não sabiam do seu gosto por cenouras. Comê-las era um ato secreto. Seus pais só se preocupavam com o fato de que ele não comia os deliciosos ratinhos recém-nascidos, os pardais saborosos, os peixes cheirosos que lhe traziam. Gullinho era diferente. E isso fazia seus pais sofrerem, porque o que os pais mais desejam é que seus filhos sejam iguais aos outros.
O fato era que os pais de Gullinho ignoravam que ele, escondido, comia a comida proibida. A mãe acabou por desconfiar das incursões secretas do Gullinho e disse ao pai que seria melhor segui-lo para ver onde ele estava se metendo. Foi o que o pai "sogateiramente" fez. Gullinho caminhava com cuidado olhando para todos os lados para ver se estava sendo seguido. Andou até chegar ao sítio do senhor Joaquim. Havia canteiros com todos os tipos de hortaliça. Foi até o canteiro de cenouras e - oh! Coisa horrenda para um pai gato - começou a comer cenouras.O pai quase morreu de susto. O filho, que ele sonhara tigre, não passava de coelho. E chorou amargamente...
Foi procurar auxílio. Um padre  ameaçou Gullinho com o Inferno. "Deus é gato, Deus ordenou que comêssemos peixes, ratos e passarinhos. Comer cenoura é pecado mortal!" Não adiantou. Gullinho continuou a vomitar peixes, ratos e passarinhos...
Levaram-no ao psicanalista. A análise durou vários anos. Mas o que o Doutor Gatan lhe dizia com linguagem complicada não alterava o seu gosto: continuava a gostar de cenouras...
Foi então que um professor da escola entendeu o drama de Gulinho. Chamou-o para uma conversa: "Nosso destino está escrito nas células do nosso corpo num "chip" pequeno chamado DNA. Esse "chip" já está no feto. Determina a cor do seu pelo, dos seus olhos, se você vai ser menino ou menina, daltônico ou não, canhoto ou destro. Você nada pode fazer para  mudar as ordens que estão no seu "chip". E acontece o mesmo com o nosso gosto por ratos ou por cenouras...Não é pecado como o padre disse porque foi o DNA que o fez assim... Não é resultado de educação e nem pode ser curado, como se fosse uma doença, porque é o DNA que o fez assim... Igual ao daltonismo.
Gullinho olhou em silêncio para o professor e pela primeira vez entendeu tudo. Sentiu que um enorme peso fora tirado de cima dele. Entendeu então que ele podia gostar de cenoura porque fora o DNA que o fizera assim -  e ninguém tinha nada com isso.
                                                    Rubem Alves

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Fábula: O gato, o galo e o ratinho

Um ratinho vivia num buraco com sua mãe. Depois de sair sozinho pela primeira vez, contou
a ela:
   - Mãe, você não imagina os bichos estranhos que encontrei! Um era bonito e delicado, tinha
um pelo muito macio e um rabo elegante, um rabo que se movia formando ondas. O outro era um monstro horrível. No alto da cabeça e debaixo do queixo ele tinha pedaços de carne crua, que balançavam quando ele andava. De repente os lados do corpo dele se sacudiram e ele deu um grito apavorante. Fiquei com tanto medo que fugi correndo, bem na hora que ia conversar um pouco com o simpático.
   - Ah, meu filho! – respondeu a mãe. – Esse seu monstro era uma ave inofensiva; o outro era
um gato feroz, que num segundo teria te devorado.

                                                            Fábulas de Esopo

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Aprender Taxonomia com a Fábula O Leãozinho Orgulhoso


Os bichos andavam alarmados, com medo do homem perigoso. Nem sabiam que jeito tinha, mas o leãozinho vaidoso convidou sua amiga, a patinha:
Venha ver, com ele vou lutar. Essa caçada, tão diferente, é o que agora vou contar.
Numa linda ilha no meio do mar, rica de árvores, de frutas, de flores, rios, lagos e cachoeiras, viviam em liberdade mil espécies de animais. O homem não tinha chegado até lá e nenhum dos animais que moravam ali o conhecia.
Certa noite, uma patinha que vivia nessa ilha teve um sonho maravilhoso.
Apareceu-lhe a rainha das patas, que lhe revelou um segredo, dizendo-lhe bem claro:
- Se você nadar três dias e três noites seguidas, em direção ao levante, encontrará uma terra encantada.
A patinha acordou e se pôs imediatamente a caminho. Depois de dois dias de viagem pelo mar, chegou à praia e se atirou na areia, quase morta. Tinha nadado tanto! Dormiu de cansaço e tornou a sonhar com a rainha que lhe dizia:
- Patinha, você se enganou! Eu disse para nadar para o levante e não para o poente. . . Vindo para cá, você cometeu um erro, pois aqui vive um ser terrível: o homem! Tome cuidado!
A patinha acordou sobressaltada. Cheia de medo saiu correndo à procura de um abrigo contra o ser terrível que se chamava homem.
Por fim encontrou um leãozinho, que de preguiça nem abriu os olhos quando lhe indagou:
- Quem é você e? a que espécie animal pertence?                    
- Sou uma patinha, da família das aves. E você?
O leãozinho entusiasmou-se e respondeu cantando:
" Da floresta eu sou rei (por enquanto é o meu pai, mas um dia eu serei). Sou feroz e poderoso, todos ficam a tremer quando urro majestoso. Que raiva, se desafino e Mamãe fico a chamar."
A patinha tremendo de medo, pediu ajuda àquele personagem tão importante que tivera a sorte de encontrar, dizendo:
- Você, que é filho do rei da floresta, podia tentar liquidar o homem, para os animais viverem tranquilos.
- Você tem razão, patinha. . . Meu pai me aconselhou a fugir do homem, mas já estou bastante grande para atacá-lo. Venha comigo.
E o leãozinho pôs-se a caminhar seguido pela patinha, que tentava acertar o passo pelo dele, muito confiante.
- Veja, patinha! Que nuvem de poeira!
- Não será o homem? - indagou ela.
- Acho que não. . . -respondeu o leão. - É um quadrúpede!
Quando se aproximaram, indagou:
- Animal desconhecido, diga quem é!                    
Diante deles estava um burrinho, que disse:
- Pertenço à espécie asinina e estou fugindo do homem. Ele quer que eu trabalhe muito e coma pouco.
- Que vergonha! - falou a patinha.
- Você teve muita sorte em me encontrar - afirmou o leãozinho. - Estou conduzindo meu exército contra o homem.
- Que exército? - quis saber o burro.
O leãozinho não se apertou:
- Bem, por enquanto o meu exército é esta patinha. Mas, se você se une a nós, eu dou a você o posto de cabo e a patinha eu deixo como simples soldado.
- Aceito - concordou o burro, zurrando de satisfação com o posto.
A patinha não entendia nada de postos, por isso nem ligou. O pequeno exército continuou sua marcha em busca do homem. Daí a pouco apareceu no horizonte outra nuvem de pó.
O leãozinho ordenou:
- Batalhão. . . alto lá! Estão ouvindo um galope? - E, dirigindo-se ao cavalo que se aproximava, indagou - Quem é você e por que corre assim?
- Eu sou um cavalo, pertenço à espécie equina e corro para fugir do homem, que tem mania de montar nas minhas costas - explicou o recém chegado.
- Venha conosco e estará seguro - convidou o leãozinho.
- Vou mesmo com vocês - afirmou o cavalo.
- Batalhão. . . marche! - comandou o capitão leãozinho.
Retomaram o caminho até que o leãozinho ordenou:
- Batalhão. . . alto!
- Mais uma nuvem de pó - observou a patinha. - Quem será agora?  
- Silêncio aí na tropa! Falo eu, que sou o comandante. Vejam! Era um camelo, por isso a nuvem de pó desta vez era tão grande.              
- Sim, sou um camelo e estou correndo para fugir do homem.
- Não diga! Até você, que é desse tamanho? - admirou-se o leão.
- O homem tem algo mais que a força, é a astúcia - esplicou o camelo e isto o ajuda a vencer sempre.
- Veremos! - disse o leãozinho. - Vamos combater o homem. Quer vir conosco?
- De boa vontade- respondeu o camelo. - Quero ver o que vocês vão fazer quando o encontrarem.
- Batalhão. . . marche!
O leãozinho seguiu à frente da tropa, até que de novo ordenou:
- Batalhão. . . alto!
- Não estou vendo nenhuma nuvem de pó- observou a patinha.
- Silêncio aí na tropa! Quem fala sou eu! Não é nenhuma nuvem de pó. É um ser estranho que carrega madeira na cabeça e traz pendurada no braço uma caixa com os ferros!
- Não será o homem? - indagou a patinha.       
- Batalhão. . . alto! - comandou o leãozinho. - Eu, que sou mais forte, vou descobrir quem é este ser estranho.
O ser era mesmo um homem, um carpinteiro, carregando madeira e ferramentas. Quando viu o leãozinho, planejou logo capturá-lo. Decidiu que o melhor meio seria usar astúcia e por isso falou manhoso:
- Filho do rei da selva, ajude-me, que estou em apuros.
O leãozinho achou que o estranho reconhecia sua superioridade e respondeu:
- Diga-me antes a que espécie pertence e qual é o seu problema.
- Pertenço à espécie dos carpinteiros e sou perseguido pelo homem.
- Venha comigo, que vou liquidar o homem - rugiu o leãozinho.
- Não posso ir junto porque tenho de levar estas madeiras que carregava na cabeça.
- Para quem você vai levar essas madeiras? - quis saber o leãozinho.
- São uma encomenda do ministro do pai de Vossa Alteza. Quer que eu faça uma casa para ele.
- E você vai fazer a casa da pantera, que é apenas o ministro do meu pai, antes de fazer a minha, que sou filho do rei da floresta?
- Posso fazer uma casa para você - assegurou o carpinteiro, mas eu nem sabia que você queria uma casa!
- Quero a casa e exijo que seja imediatamente - ordenou o leãozinho.
Conforme disse, o leãozinho ergueu as patas da frente e empurrou o carpinteiro pelos ombros fazendo-o perder o equilíbrio e cair sentado no chão.
- Quero que faça uma casa para mim.
- E a pantera? - indagou o carpinteiro.
- A pantera que se dane! Comece logo a minha casa.
O carpinteiro que era muito manhoso, tinha conseguido o que queria. Desde o começo que não contara que era um homem, fizera o plano de aprisionar o leãozinho e só para lográ-lo inventara essa história de construir uma casa.
Quando o trabalho já estava quase pronto, disse com muito jeito:
- Experimentar para quê?
- Não quero que depois você se queixe que ficou muito estreita ou mal ventilada - explicou o carpinteiro.
O leãozinho meteu-se na caixa, embora com certa dificuldade, queixando-se:
- Puxa! Não consigo enfiar todas as pernas aqui dentro!
O carpinteiro estimulava:
- Precisa um pouquinho de jeito para morar em casa.
O leãozinho suava para acomodar-se e dizia:
- Já estou quase dentro.
- Força, amigo!
- Agora vou experimentar o teto - falou o carpinteiro.
O carpinteiro bem depressa colocou a tampa na caixa e pregou com marteladas rápidas e seguras. Lá dentro o leãozinho gritava:
- Carpinteiro! Abra a porta, que a casa é muito estreita.
- Mais estreita vai ser a jaula - respondeu o carpinteiro.
- Você queria matar o homem e o homem aprisionou você.
- Quer dizer que você é um homem? - admirou-se o leãozinho.
- Claro que sim - afirmou o carpinteiro. - E venci sua força e ferocidade com minha astúcia e inteligência.
Ao verem o que acontecia, o burro, o cavalo, o camelo e a patinha acharam que estava dissolvido o batalhão de caça ao homem.
O burro comentou:
O leãozinho caiu como um pato.
A patinha respondeu:
- Deixou-se prender como um burro, isso sim!
O cavalo aconselhou:
- Melhor voltarmos à nossa vida de antes.
- Acho que eu tenho mesmo é que puxar carroça - disse o burro.
- E eu de carregar o homem - conformou-se o cavalo.
- Eu vou me reunir a uma caravana no deserto - foi a despedida do camelo, afastando-se do grupo.
A patinha tomou o rumo do mar e se pôs a nadar em direção a sua ilha rica de árvores, frutas, flores, rios, lagos e cachoeiras, onde o ser terrível e astuto, chamado homem, não tinha chegado ainda.
Fábula Oriental