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terça-feira, 10 de abril de 2018

Poema : O Voo - de Menotti del Pichia

Goza a euforia do voo do anjo perdido em ti
Não te indagues se nossas estradas, tempo e vento
desabam em um abismo
que sabes tu do fim?
Se temes que o teu mistério seja uma noite,
enche-a de estrelas.
Conserva a ilusão de que o teu voo te leva
sempre para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão,
se pressentires que amanhã estarás muda,
esgota, como um pássaro,
as canções que tens na garganta.
Quem sabe as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.
Desde que nasceste,
não és mais que um voo no tempo.
Rumo ao céu? Que importa a rota?
Canta e voa,
enquanto  resistirem as tuas asas.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Oração dos Animais

Meu São Francisco de Assis
Protetor dos animais
Olhai por nós que rogamos
Vossa bênção e muita paz.

Olhai os abandonados
Sofrendo agruras nas ruas
E os que puxam carroças
Açoitados nas ancas nuas.

Pelos pobres passarinhos
Que não podem mais voar
Presos em rudes gaiolas
Só porque sabem cantar.

E as cobaias de laboratório
Que sofrem dores atrozes
Em experiências terríveis
Que lhes impõem seus algozes.

Pelos que são abatidos
Em matadouros insanos
Para servir de alimento
Aos que se dizem humanos

Olhai os que são perseguidos
Sem piedade nas florestas
Só por causa da ambição
Dessas caçadas funestas.

Pelos animais de circo
Que não têm mais liberdade
Presos em jaulas minúsculas
À mercê de crueldade.

Olhai os bois de rodeio
E os sangrados nas touradas
Barbárie e crimes impostos
Por pessoas desalmadas.

Pelos que têm de lutar
Até a morte nas rinhas
Quando o homem faz apostas
Em transações tão mesquinhas.

Olhai para os que são mortos
Nos macabros rituais
Em altares religiosos
Que usam sangue de animais.

Meu bondoso protetor
Oro a vós por meus irmãos
Para que sua dor e tristeza
Não sejam sofrimentos vãos

Ivana Maria França de Negri

sábado, 9 de dezembro de 2017

Poema de Natal


Para isso fomos feitos: 
Para lembrar e ser lembrados 
Para chorar e fazer chorar 
Para enterrar os nossos mortos - 
Por isso temos braços longos para os adeuses 
Mãos para colher o que foi dado 
Dedos para cavar a terra. 
Assim será a nossa vida: 
Uma tarde sempre a esquecer 
Uma estrela a se apagar na treva 
Um caminho entre dois túmulos - 
Por isso precisamos velar 
Falar baixo, pisar leve, ver 
A noite dormir em silêncio. 
Não há muito que dizer: 
Uma canção sobre um berço 
Um verso, talvez, de amor 
Uma prece por quem se vai - 
Mas que essa hora não esqueça 
E por ela os nossos corações 
Se deixem, graves e simples. 
Pois para isso fomos feitos: 
Para a esperança no milagre 
Para a participação da poesia 
Para ver a face da morte - 
De repente nunca mais esperaremos... 
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas 
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Morais

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

O pássaro cativo - Poema de Olavo Bilac



Armas, num galho de árvore, o alçapão
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
Gaiola dourada;


Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos e tudo. 
Por que é que, tendo tudo, há de ficar 
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste sem cantar?
É que, criança, os pássaros não falam.


Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem, 
Talvez os teus ouvidos escutassem 
Este cativo pássaro dizer:


"Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro


Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores
Sem precisar de ti!


Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola,
De haver perdido aquilo que perdi...
Prefiro o ninho humilde construído

De folhas secas, plácido, escondido.
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pombas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade!
Não me roubes a minha liberdade...
Quero voar! Voar!


Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar,
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição,
E a tua mão tremendo lhe abriria
A porta da prisão...

sábado, 11 de junho de 2016

Lira do Amor Romântico de Carlos Drummond de Andrade


Atirei um limão n’água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.

Atirei um limão n’água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.

Atirei um limão n’água,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.

Atirei um limão n’água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.

Atirei um limão n’água
mas perdi a direção.
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dói uma paixão!

Atirei um limão n’água,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.

Atirei um limão n’água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
É dor de quem muito amou.

Atirei um limão n’água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.

Atirei um limão n’água
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.

Atirei um limão n’água,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.

Atirei um limão n’água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.

Atirei um limão n’água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.

Atirei um limão n’água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh’alma dolorida.

Atirei um limão n’água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.

Atirei um limão n’água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.

Atirei um limão n’água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?

Atirei um limão n’água,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado pra trás.

Atirei um limão n’água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
você não ama: tortura.

Atirei um limão n’água
e caí n’água também,
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.

Atirei um limão n’água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.

sábado, 23 de abril de 2016

O mosquito escreve - poesia infantil de Cecília Meireles

O mosquito pernilongo
trança as pernas, faz um M,
depois, treme, treme, treme,
faz um O bastante oblongo,
faz um S.

O mosquito sobe e desce.
Com artes que ninguém vê,
faz um Q,
faz um U, e faz um I.

Este mosquito
esquisito
cruza as patas, faz um T.
E aí,
se arredonda e faz outro O,
mais bonito.

Oh!
Já não é analfabeto,
esse inseto,
pois sabe escrever seu nome.

Mas depois vai procurar
alguém que possa picar,
pois escrever cansa,
não é, criança?

E ele está com muita fome.


QUESTÕES
1- Encontre o nome do inseto destacado no poema.
2- Por que o mosquito do poema não é analfabeto?
3- Ilustre o poema.
4-Pesquise no dicionário o significado da palavra OBLONGO.
5-Por que o mosquito tem que procurar alguém para picar?

domingo, 17 de maio de 2015

Reverência ao Destino


Falar é completamente fácil, quando se tem em mente, as palavras que expressem sua opinião. 
Difícil é expressar por gestos e atitudes, o que realmente queremos dizer. 

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ela deseja ouvir. 
Difícil é ser amigo para todas horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. 

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre ela. 
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer. 

Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar. 
Difícil é mentir para o nosso coração. 

Fácil é ver o que queremos enxergar. 
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. 

Fácil é dizer "oi", ou "como vai ?". 
Difícil é dizer "adeus". 

Fácil é ouvir a música que toca. 
Difícil é ouvir a sua consciência. 

Fácil é perguntar o que deseja saber. 
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta. 

Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade. 
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou vice-versa. 

Fácil é beijar. 
Difícil é entregar a alma! 

Fácil é ditar regras. 
Difícil é seguí-las. 

Fácil é sonhar todas as noites. 
Difícil é lutar por um sonho. 

Fácil é exibir sua vitória a todos. 
Difícil é assumir a sua derrota com dignidade. 

Fácil é viver o presente. 
Difícil é se desvencilhar do passado. 

Fácil é tropeçar em uma pedra. 
Difícil é levantar de uma queda, todo machucado. 

Fácil é desfrutar a vida a cada dia. 
Difícil é dar o verdadeiro valor a ela.


  Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 22 de abril de 2015

23 de Abril - Dia Mundial do Livro



CAIXA MÁGICA DE SURPRESA
   
   
    
Um livro
é uma beleza,
é caixa mágica
só de surpresa.
Um livro
parece mudo,
mas nele a gente
descobre tudo.
Um livro
tem asas
longas e leves
que, de repente,
levam a gente
longe, longe.
Um livro
é parque de diversões
cheio de sonhos coloridos,
cheio de doces sortidos,
cheio de luzes e balões.
Um livro
é uma floresta
com folhas e flores
e bichos e cores.
É mesmo uma festa,
um baú de feiticeiro,
um navio pirata no mar,
um foguete perdido no ar,
é amigo e companheiro. 
    Elias José

terça-feira, 17 de março de 2015

Poesia Matemática


Às folhas tantas 
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia doidamente por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida paralela à dela
até que se encontraram no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando ao sabor do momento e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes  até aquele dia
em que tudo vira afinal monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos, viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser moralidade
como aliás em qualquer sociedade.
           Millôr Fernandes

domingo, 11 de janeiro de 2015

Navegue

Navegue, descubra tesouros, mas não os tire do fundo do mar,
 o lugar deles é lá.
Admire a lua, sonhe com ela, mas não queira trazê-la para a terra.
Curta o sol, se deixe acariciar por ele, mas lembre-se que o seu 
calor é para todos.
Sonhe com as estrelas, apenas sonhe, elas só podem brilhar no céu.
Não tente deter o vento, ele precisa correr por toda parte, ele tem 
pressa de chegar sabe-se lá onde.
Não apare a chuva, ela quer cair e molhar muitos rostos, não pode 
molhar só o seu.
As lágrimas? Não as seque, elas precisam correr na minha, na 
sua, em todas as faces.
O sorriso! Esse você deve segurar, não deixe-o ir embora, 
agarre-o!
Quem você ama? Guarde dentro de um porta jóias, tranque, 
perca a chave!
Quem você ama é a maior jóia que você possui, a mais valiosa.
Não importa se a estação do ano muda, se o século vira e se o
 milênio é outro, se a idade aumenta; conserve a vontade de viver,
 não se chega à parte alguma sem ela. Abra todas as janelas 
que encontrar e as portas também.
Persiga um sonho, mas não deixe ele viver sozinho.
Alimente sua alma com amor, cure suas feridas com carinho.
Descubra-se todos os dias, deixe-se levar pelas vontades, 
mas não enlouqueça por elas.
Procure, sempre procure o fim de uma história, seja ela qual for.
Dê um sorriso para quem esqueceu como se faz isso.
Acelere seus pensamentos, mas não permita que eles te consumam.
Olhe para o lado, alguém precisa de você.
Abasteça seu coração de fé, não a perca nunca.
Mergulhe de cabeça nos seus desejos e satisfaça-os.
Agonize de dor por um amigo, só saia dessa agonia se conseguir
 tirá-lo também.
Procure os seus caminhos, mas não magoe ninguém nessa procura.
Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!
Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando 
julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se 
afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se achá-lo, segure-o!
“Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada”.
                                                   Fernando Pessoa